"...a literatura e qualquer arte serve para desabrochar a imaginação. E se você não tem boa leitura, não tem boa musica, não tem boa pintura, a sua imaginação fica um pouco embotada, fica um pouco sem caminho."
Manoel de Barros

ANTES DO PÔR DO SOL
Um recital poético...

Navegante

De mim
exijam pouco...

Pois o tempo
que me resta
é louca busca
de como atravessar
o Sol...

Damário Dacruz

sexta-feira, 11 de junho de 2010

DIA 13

POESIAS DE
DAMÁRIO DACRUZ

Com YUMARA RODRIGUES
Participação especial da flautista
 ELENA RODRIGUES
Direção e roteiro: CRISTINA DANTAS

Quando: a partir do dia 13/06/2010 / todos os domingos
Hora: Antes do Pôr do Sol

OLÉ
Quando na arena
um touro me matar
não me socorram,
pois ninguém socorre
o touro quando o mato. 

segunda-feira, 31 de maio de 2010

RECITAL DAMÁRIO DACRUZ

POESIAS DE
DAMÁRIO DACRUZ


Com YUMARA RODRIGUES
Participação especial de TUZÉ DE ABREU
Direção: CRISTINA DANTAS

Quando: dia 06/06/2010
Hora: Antes do Pôr do Sol

CALMARIA

 
A que porto
Busca este barco
De madeira podre?

Haverá cais livre
Nos mares humanos
Que hospede silenciosamente
Um navegante suicida
Num barco podre?

 Os portos estão fechados
Às naus da liberdade
Os corações dos homens
Já não acalmam
As correntes violentas
Da razão dominadora.

 O barco da liberdade
Apodrece nas mãos de todos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

DAMÁRIO DACRUZ


Hoje pela manhã estava olhando a imensidão do mar numa atividade trivial de um dia qualquer, quando fui invadida pela notícia do falecimento do poeta a quem conheci numa das apresentações do recital de Brecht, onde ele falou sobre a importância da palavra e da poesia. Fui invadida pelas belas palavras de Yumara, belas porque poéticas e que continham toda a imensidão do mar à minha frente. Invadida porque nunca esperamos a morte... mas ela não difere da imensidão do mar, tão grande e bela que transcende o espaço do significado... mas aporta gigante no espaço da poesia.

Evoé, Damário!!! Estaremos juntos em nosso próximo recital poético...

Foi através destas palavras que transcrevo abaixo que Damário despediu-se do lápis escrevendo o seu último poema, mas permitindo-se à eternidade da poesia:

GRAN FINALE

Avise aos amigos
que preparo o último verso

A vida
dura menos que um poema
e no alvorecer mais próximo
saio de cena.


Confiram abaixo entrevista concedida à revista Muito do jornal A TARDE, em 09/11/08.

Todo risco de ser poeta
Ele começou a escrever poesia aos 15 anos; lá se vão 40. É autor do poema Todo Risco, que está na 17ª edição. Foi balconista, líder estudantil, repórter e sindicalista. A fotografia e a cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano, são suas outras paixões.

Qual é sua lembrança mais remota de querer ser escritor?
Quando decidi dormir longe de todos. Tinha 15 anos e inventei um quarto para mim no porão da casa paterna.
Qual é o tema que acaba invadindo os seus poemas, mesmo quando você não quer?
Todos os temas invadem a poesia. Mas, o efêmero, das coisas e dos sentimentos, anda sempre me cercando. Adoro relâmpagos e palavras rápidas no ouvido.

Você foi para Cachoeira atrás de que?
Da pequena e forte aldeia que universaliza o poeta.

Você às vezes tem a impressão de que tudo o que era importante já foi escrito? Se sim, quem foi que já disse tudo?
Ninguém é capaz de dizer tudo sozinho. Ninguém é grande sozinho. Somos uma mistura do muito que muitos nos dizem. Por incrível que possa parecer, acredito que a grande vedete deste milênio será a PALAVRA publicada em outros suportes.

Escritor é um ser mais angustiado que as outras pessoas? Poeta mais ainda?
Conheço gente bem mais angustiada fora da literatura do que dentro dela. A minha vida e a minha poesia estão distante disto. Elas estão a serviço, inclusive, da não-agonia humana.

Página em branco te dá pesadelo? Ao contrário. Produz o sonho das imensas possibilidades.

Qual foi o caminho que você evitou por medo, como diz em “Todo Risco”?
O caminho da dedicação exclusiva à minha obra poética e fotográfica como muitos fizeram. Mas, obtive belos ganhos, por navegar em águas distintas.

Literatura é mais conforto ou agonia?
As duas coisas na medida de cada um. Literatura substitui certas brincadeiras proibidas após a infância. Literatura é liberdade perseverante. E a Liberdade,às vezes, também doi.

Dê uma definição poética para a poesia.
De vez em quando me perguntam para que serve a poesia. A minha resposta tem sido dada com duas perguntas e duas respostas: Para que serve a poesia ?, para fazer o homem. Para que serve o homem ?, para fazer poesia


quinta-feira, 6 de maio de 2010

PRÓXIMO RECITAL...

FIQUEM ATENTOS!!!

BREVE ESTAREMOS DE VOLTA ANTES DO PÔR DO SOL...

Já estamos preparando o nosso próximo recital com poesias do poeta DAMÁRIO DA CRUZ!!!

NOTÍCIAS...

Em entrevista à revista Muito (02\05\10), o profº Saja nos reverencia com um belo depoimento.

Pergunta da Muito: "O que a sociedade perde hoje sem a crítica de arte?"

Saja responde: "Ah, a sociedade perde a sua alma. Eu vou lhe citar uma grande amiga minha, falarei o nome dela em pé (levanta-se). Fernanda Montenegro disse: 'Se você me mostrar o que está acontecendo nos palcos da cidade, eu lhe digo que cidade é essa'. Eu tive a oportunidade, recentemente, de presenciar um recital de Yumara Rodrigues. Rapaz! A gente precisa daquilo para viver. Se você tira aquilo, tira a noção de cidadania, a noção de cidade. Daqui a pouco vou chorar aqui. Cidades deveriam ser construídas em torno de teatros, de galerias, que é o que faz viver, o que faz pulsar."

Obrigada Saja!!! Você nos faz refletir também sobre os inúmeros teatros que estão fechando... e fechando... metáfora aos valores que nos são caros e estão desaparecendo... e desapare... desap... de... d... ... ... ...

Cristina Dantas
06\05\10

quarta-feira, 31 de março de 2010

A CASA DE YUMARA

O palco diante da janela que emoldura o mar fica na casa da atriz. O palco é pequeno, mas não existe palco pequeno se sobre ele atua Yumara Rodrigues. Foi nesse palco que ela começou o recital que continua em mim dias depois de terminada a sessão. Desconfio que ele vai durar em mim pra sempre. Sempre fui aluno atento de Yumara, mesmo nunca tendo sido seu aluno realmente. É que Yumara é mestra de qualquer ator que cruze seu caminho. Uma mestra em suas escolhas e destrezas. Grande. Esse podia ser seu sobrenome. Yumara Grande. Nela cabem todas as mulheres que eu conheço e todas as outras escritas pelos grandes autores. Cabem nela também os homens que conheci e um dia pretendo ser ou inventar nesse nosso árduo e delicioso ofício. Em Yumara encontrei inspiração inesgotável e o compromisso com o rigor. Master class. É isso. Yumara é master class. Antes de conhecê-la ouvia dos mais experientes que ela era capaz de chorar com um olho e sorrir com o outro. Ouvi também que uma atriz como ela bastava ler a lista telefônica para fazer a platéia inteira rir e chorar com os dois olhos. O que sei agora é que meus grandes olhos viraram um coração quando a vi sobre o palco da sua casa e assim será em todos os outros, pois todos os palcos são a casa de Yumara. Casa onde sou hospede e eternamente grato pelo abrigo que é seu enorme talento.

Ricardo Castro
Salvador, 23 de março de 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

HOMENAGEM NO TCA

A homenagem aos 50 anos de carreira da atriz Yumara Rodrigues, realizada ontem no Teatro Castro Alves foi promovida pela Funceb/ TCA/Secult para comemorar o dia Internacional do Teatro. Muitos artistas da classe teatral baiana compareceram ao evento...

Durante os aplausos Yumara recebeu rosas vermelhas das mãos de uma jovem atriz de 16 anos e este encontro entre duas gerações tão distantes prova mais uma vez que o TEATRO deve viver e ser fortalecido para que outras "Yumaras", "Cacildas", "Fernandas", etc possam continuar existindo!!!

Yumara Rodrigues  ressalta após os aplausos que se não fosse o TEATRO, tudo o que fez em seus 50 anos de carreira teria sido em vão... E que o TEATRO ainda está vivo e ela também afinal!!!

Um depoimento comovido que o Profº Saja fez a mim, merece um destaque, pois aponta o recital como um momento ímpar, com uma atriz de 75 anos em pleno vigor e que sabe dar valor às palavras... E diz: "ela tem alguma coisa especial que emana...".  Disse ele que Yumara Rodrigues e Fernanda Montenegro deixam um rastro de energia por onde passam e não há quem não as olhe de costas!! "E quem escolheu as poesias?" pergunta emocionado. Respondo tímida: eu.

O recital com as poesias de Brecht, o qual faz parte do nosso projeto ANTES DO PÔR DO SOL, encontrou o palco do Teatro Casto Alves para a sua realização. Além da atriz referida, somos os artistas envolvidos:
  • Bertolt Brecht - Poesias
  • Cristina Dantas - Direção Artística e Roteiro
  • Eduardo Tudella - Iluminação
  • Alexandre Bloisi - Violonista
Por sua generosidade, comprometimento, competência e, sobretudo, profissionalismo, faço um agradecimento especial e necessário a Eduardo Tudella!! Obrigada Tudella!

Cristina Dantas

29/03/2010 - 07:47


COMENTÁRIOS:
Cristina,
depois de falar com Yumara, após o recital, precisei sair e não pude esperar para lhe dar os parabéns, tanto pela bela iniciativa de homenagear nossa querida atriz quanto pela direção do espetáculo. Não sei quem fez a escolha dos textos, se você, ou ela, ou ambas, mas quero dizer que foi muito feliz, muito certeira. O texto final espande a ironia de Brecht para nosso próprio tempo, e para a atenção que nem sempre damos aos que nos antecederam. Vocês acertaram no alvo, ou antes, no rubro dos nossos corações, emocionando a plateia presente.
Um beijo,
valeu!
Cleise Mendes

Bela iniciativa, Cris. Ver Yumara em cena é um presente para atrizes de todas as gerações e para o público em geral.
beijos,
Hebe Alves
 
Parabéns, querida!
Esse projeto é simplesmente você e seu coração. "Simples" assim.
João Reis

quinta-feira, 4 de março de 2010

MAIS UM DOMINGO...

Mais um domingo se apresenta à nossa frente, dia sete mais um sol irá se pôr na baía para o deleite das nossas lembranças. Nunca passei tantos domingos seguidos de sol e poesia, de sombra e luz, da visão de um quadro embebido de nuanças de cores, onde pintamos os nossos sonhos, onde desenhamos o invisível... assim tenho passado “o tempo que sobre a terra me foi dado”. As presenças ilustres e amorosas dos nossos convidados têm deixado o teatro da sala da atriz ainda mais quente. Ao final de cada recital conversamos todos sobre tantas coisas, tantas associações, realmente é uma honra poder estar presente junto ao olhar imaculado de Haydil Linhares, cujo depoimento emocionou a todos, às delicadas e primorosas palavras do poeta Damário da Cruz, à música de Hebe Alves pintando o quadro com as cores vivas das suas risadas, à escuta serena de Denise Coutinho, aos atentos diretores de teatro Márcio Meirelles, Luiz Marfuz e Paulo Dourado, à graciosidade de Mário Gadelha, aos carinhosíssimos Ricardinho Castro e Iami Rebouças,  enfim, a todos os nossos amigos, afetos e afins preciosos que estão inundando de vida as tardes de domingo. Alguns podem até dizer: Poesia é só isso? Mas para mim é Tudo isso!

Cristina Dantas, 05/03/10, 00:47

ENCANTADAS PALAVRAS PARA ANTES DO PÔR DO SOL...

Cristina,
Nem antes e nem depois do Pôr do Sol encontro a palavra certa para traduzir meu sentimento de gratidão, pelas coisas lindas que você tem me proporcionado, pela sua generosidade de ver que uma atriz chegando ao fim de seu caminho pode ainda tocar os limites do humano ser. É verdade, em tempos negros é difícil tocar a sensibilidade de alguém. Felizmente ainda há algumas Cristinas e "Cristinos" dispostos a ouvir poemas e canções na voz de uma atriz que insiste em tornar vivo o teatro.
Gracias!
Yumara Rodrigues

BRAVO, BRAVÍSSIMO! QUE PALAVRAS BELÍSSIMAS SOBRE NOSSA MESTRA, E SOBRE O TEMPO NECESSÁRIO, QUE É SENHOR,...MULHERES MARAVILHOSAS, VOCÊ E ELA, DONA YUMARA, MULHERES, IABÁS, 02 do 02, ODÔ YÁ Ô SI IABÁ!
MUITO OBRIGADO!
NÃO DELETAREI "ANTES DO PÔR DO SOL" NUNCA!
UM GRANDE BEIJO!
Frank Menezes

Cris querida,parabéns por tudo isto que te envolve e que faz com que essa eterna energia se reinstaure.Que maravilha deve ter sido este por do sol. Não estive lá mas sempre quererei estar onde estiver você e onde estiver Yumara e o seu teatro.
Um grande beijo para as duas.com grande respeito,
Iami Rebouças

Cris, fiquei comovida.
Voce tb. foi sincera com as palavras e sua atriz.
Muito justo sobre Yumara. Acho ela muito verdadeira.
Carinho Carmen Paternostro

Cristina,
Ainda que não tenha visto o espetáculo de Yumara (que considero um dos monumentos do teatro baiano), concordo com suas palavras e achei o texto lúcido e bem coerente.
Um abraço do
André Setaro

Cristina,
Que bela reflexão. Parece até que estou vendo a Yumara no palco. Eu ficava extasiado quando a via interpretar. Pena que não pude ir...
bjs
Bertrand Duarte

Nossa que coisa linda, fiquei tocado pelas suas belas palavras, este recorte que você me mandou está impregnado da grandiosidade de Yumara e do seu atento olhar sobre o presente, eternamente grato Yulo cezzar

Lindo, Profundo, Soa como se suas palavras tivessem sido extraídas do fundo de sua alma. Como se a atriz de dentro de vc tivesse finalmente encontrado a paz & contentamento no seu interior. Um
contentamento que nós tanto procuramos ao nosso redor, mas não o encontramos por quase sempre estarmos olhando para o lugar errado.
parabéns
Gustavo Peroba

AS PALAVRAS DE CRIS, TODA SUA PECULIARIDADE EM SENTIR,ME FAZEM REPENSAR E TER UMA ESPERANÇA RARA,NESTE REAL "IMPÉRIO DE MEDIOCRIDADES".SÃO MOMENTOS COMO ESSES QUE ME FAZEM EXPRESSAR:TUDO O QUE VEJO É "OURO SILENCIOSO",DENTRO DESTE ESPELHO, ME ESPALHO EM ROSTOS.
ESTOU COM CRIS, SUAS PALAVRAS REVERBERAM NA ALMA E TODA FLOR NÃO MORRE COMO TODO SILÊNCIO GRITA EM REALIDADES ABSURDAMENTE ESPLENDOROSAS: YUMARA RODRIGUES, IMORTAL; CRIS, UMA PONTE DO REAL À FANTASIA. AGORA,TENHO A REALIDADE MAIS PURA E MINHAS PALAVRAS HABITAM HISTÓRIAS DE CRIANÇAS.
GEORGE LUNA

Que lindo, Cris.
Adorei.
bjs,
Sérgio Sobreira

Cris,
Gostei muito. Absolutamente pertinente, sendo também uma bela ferramenta de valorização do trabalho feito por vocês. Parabéns! :) Como eu não tinha lido, tenho convicção que todos gostarão da exposição do seu amor ao teatro.
Bjs
João Reis

Que bom, Cris, que você atriz está nos trazendo de volta Yumara Rodrigues, atriz!
Beijos,
Mariana Freire

Cris!!!!!!!
Emocionante seu relato... Tenho pouquíssimo contato com Yumara, mas sabemos do seu soberano talento. Como você mesma diz, impossível não atribuir isso aos seus longos anos de experiência. É preciso estofo para torna-se Yumara, Fernada, Cacilda, Natália...
E é preciso sabedoria e sensibilidade para reconhecer e aprender com esses mestres do teatro, e você tem.
Obrigada por dividir essa experiência...
Vida longa as estrelas para que continuem brilhando e iluminando!
Beijo!
Jussara Mathias

Obrigada mesmo Cris! Por tudo, obrigada.
Chorei, muito lindo! Vou levar comigo.
Beijos,
Malu Carregosa

Muito bom mesmO!!!!
Lídice Berman

Liiinnndooo!!!!
Sou grande admiradora dessa grandiosa atriz que é Yumara Rodrigues.
Obrigada por partilhar esse momento!
Grande abraço.
Cibele de Sá

Que permissão linda, você teve!
Bj
Morgana D’ávila

Êta amiga "retada"!!!!!! rsrsrs
Amei o momento poético... Continue abrindo as portas da sua alma poética e nos presenteando com a vibração de suas palavras...
Mil beijos
Mônica Tavares

Linda poesia, Cris e absolutamente contemporânea. parabéns! Bjos,
Tânia Abreu

Muito linda! PARABÉNS!
Márcia Rabelo

sábado, 27 de fevereiro de 2010

ANTES DO PÔR DO SOL

Antes do pôr do sol estava lá, num ensolarado domingo à tarde, olhando a baía de todos os santos à espera da atriz, à espera da sua poesia, à espera da palavra de um tempo que ainda está vivo, de um tempo que ainda sobrevive ao império da mediocridade, de um tempo cuja pulsão ecoa pelos ares e invade os nossos sentidos. Deste modo fui tocada e invadida pelo desejo da atriz, pelo desejo de abrir para o mundo as portas da sua casa para mostrar que a poesia ainda está viva e vibrante.

Simples e leve como um passarinho, forte e abundante como um maremoto, assim eu vi a atriz. Acompanhada pelas palavras de Bertolt Brecht e o violão clássico de Alexandre Bloisi, Yumara Rodrigues preencheu a sua casa com a fúria de uma das maiores atrizes da Bahia, com o vigor de uma principiante e a maturidade de uma exímia veterana. Humildemente me recostei na cadeira e pude presenciar mais um momento ímpar na minha vida.

Nos tempos de hoje, é necessário reconhecer que só a experiência de anos de prática, de uma prática sincera e profunda, permite a uma atriz ser simples, a estar só com as palavras, poder senti-las dignamente e sem subterfúgios, dirigindo-as generosamente a nós poucos privilegiados espectadores.

Nos tempos de hoje, é necessário reconhecer que só uma rica trajetória de trabalho árduo e primoroso é capaz de fazer uma atriz atravessar os limites do humano e ir a fundo a nossas entranhas, de fazer-nos únicos ouvintes de sua voz.

Nos tempos de hoje, ignorar que há um caminho a ser percorrido para alcançar tamanha magnitude é uma lástima. Malditos aqueles que já nascem magnânimos.

Nos tempos de hoje, aplaudir o medíocre é ascender socialmente, é ter status, é fazer teatro na pocilga para comer junto aos porcos. “É verdade, eu vivo em tempos negros. / Palavra inocente é tolice” vocifera Yumara com os versos de Brecht. Nos tempos negros de hoje, precisamos reconhecer antes do pôr do sol...

Cristina Dantas, 02/02/10, 15:15
BERTOLT BRECHT - POESIAS


TAMBÉM O CÉU
Também o céu às vezes desmorona
E as estrelas caem sobre a terra
Esmagando-a com todos nós
Isto pode ser amanhã.

ALÉM DESSA ESTRELA
Além dessa estrela, pensei, nada existe
E ela está tão devastada
Ela somente é nosso abrigo, e
Olha o aspecto dele

A ÁRVORE EM FOGO
Na tênue névoa vermelha da noite
Víamos as chamas, rubras, oblíquas
Batendo em ondas contra o céu escuro.
No campo em morna quietude
Crepitando
Queimava uma árvore.

Para cima estendiam-se os ramos, de medo estarrecidos
Negros, rodeados de centelhas
De chuva vermelha.
Através da névoa rebentava o fogo.
Apavorantes dançavam as folhas secas
Selvagens, jubilantes, para cair como cinzas
Zombando, em volta do velho tronco

Mas tranqüila, iluminando forte a noite
Como um gigante cansado à beira da morte
Nobre, porém, em sua miséria
Erguia-se a árvore em fogo.

E subitamente estira os ramos negros, rijos
A chama púrpura a percorre inteira –
Por um instante fica erguida contra o céu escuro

E então, rodeada de centelhas
Desaba.

SOUBE QUE VOCÊS NADA QUEREM APRENDER
Soube que vocês nada querem aprender
Então devo concluir que são milionários.
Seu futuro está garantido – à sua frente
Iluminado. Seus pais
Cuidaram para que seus pés

Não topassem com nenhuma pedra. Neste caso
Você nada precisa aprender. Assim como é
Pode ficar.
Havendo ainda dificuldades, pois os tempos
Como ouvir dizer, são incertos
Você tem seus líderes, que lhe dizem exatamente
O que tem a fazer, para que vocês estejam bem.
Eles leram aqueles que sabem
As verdades válidas para todos os tempos
E as receitas que sempre funcionam.
Onde há tantos a seu favor
Você não precisa levantar um dedo.
Sem dúvida, se fosse diferente
Você teria que aprender.

ELOGIO DO APRENDIZADO
Aprenda o mais simples!Para aqueles
Cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas
Aprenda! Não desanime!
Comece! É preciso saber tudo!
Você tem que assumir o comando!

Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
Você tem que assumir o comando!
Freqüente a escola, você que não tem casa!
Adquira conhecimento, você que sente frio!
Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma.
Você tem que assumir o comando.

Não se envergonhe de perguntar, camarada!
Não se deixe convencer
Veja com seus olhos!
O que não sabe por conta própria
Não sabe.
Verifique a conta
É você que vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada item
Pergunte: O que é isso?
Você tem que assumir o comando.

OS ESPERANÇOSOS
Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer
E que os insaciáveis
Devolvam-lhes algo?
Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los!
Por amizade
Os tigres convidarão
A lhes arrancarem os dentes!
É por isso que esperam!

COMETEMOS UM ERRO
Você parece ter dito: se
O meu olho me incomoda
Eu o arranco.

Com isso quis de todo modo sugerir
Que se sente ligado a nós
Como um homem se sente ligado
A seu olho.

Isso é bonito de sua parte, camarada, mas
Permita-nos chamar sua atenção para o seguinte:
O homem, nessa imagem, somos nós
Você é apenas o olho.

A CRUZ DE GIZ
Eu sou uma criada. Eu tive um romance
Com um homem que era da SA.
Um dia, antes de ir
Ele me mostrou, sorrindo, como fazem
Para pegar os insatisfeitos.
Com um giz tirado do bolso do casaco
Ele fez uma pequena cruz na palma da mão.
Ele contou que assim, e vestido à paisana
Anda pelas repartições de trabalho
Onde os desempregados fazem fila e xingam
E xinga junto com eles, e fazendo isso
Em sinal de aprovação e solidariedade
Dá um tapinha nas costas do homem que xinga
E este, marcado com a cruz branca
É apanhado pela SA. Nós rimos com isso.
Andei com ele um ano, então descobri
Que ele havia desfalcado minha caderneta de poupança.
Havia dito que a guardaria para mim
Pois os tempos eram incertos.
Quando lhe tomei satisfações, ele jurou
Que suas intenções eram honestas. Dizendo isso
Pôs a mão em meu ombro para me acalmar.
Eu corri, aterrorizada. Em casa
Olhei minhas costas no espelho, para ver
Se não havia uma cruz branca.

EM TEMPOS NEGROS
Não se dirá: Quando a nogueira balançou no vento
Mas sim: Quando o pintor de paredes esmagou os trabalhadores.
Não se dirá: Quando o menino fez deslizar a pedra lisa pela superfície da correnteza
Mas sim: Quando prepararam as grandes guerras.
Não se dirá: Quando a mulher foi para o quarto
Mas sim: Quando os grandes poderes se uniram contra os trabalhadores.
Mas não se dirá: Os tempos eram negros
E sim: Por que os seus poetas silenciaram?

AOS QUE VÃO NASCER
É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranqüilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?
Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido)

As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d’água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser sábio
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.

À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

A comida comi entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor cuidei displicente
E impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.

Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.

Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pensem em nós
Com simpatia.

POR QUE DEVERIA MEU NOME SER LEMBRADO?
Outrora pensei: em tempos distantes
Quando tiverem ruído as casas onde moro
E apodrecido os navios em que viajei
Meu nome ainda será lembrado
Juntamente com outros

Porque louvei as coisas úteis, o que
No meu tempo era tido como vulgar
Porque combati as religiões
Porque lutei contra a opressão ou
Por um outro motivo.

Porque fui a favor dos homens e tudo
Coloquei em suas mãos, honrando-os assim
Porque escrevi versos e enriqueci a língua
Porque ensinei o comportamento prático ou
Por qualquer outro motivo.

Por isso achei que meu nome ainda seria
Lembrado, em uma pedra
Estaria meu nome, retirado dos livros
Seria impresso nos novos livros.

Mas hoje
Concordo em que seja esquecido.
Por que
Perguntariam pelo padeiro, havendo pão suficiente?
Por que
Seria louvada a neve que já derreteu
Havendo outras neves para cair?
Por que
Deveria haver um passado, havendo
Um futuro?

Por que
Deveria meu nome ser lembrado?

Tradução de Paulo César de Souza