BERTOLT BRECHT - POESIAS
TAMBÉM O CÉU
Também o céu às vezes desmorona
E as estrelas caem sobre a terra
Esmagando-a com todos nós
Isto pode ser amanhã.
ALÉM DESSA ESTRELA
Além dessa estrela, pensei, nada existe
E ela está tão devastada
Ela somente é nosso abrigo, e
Olha o aspecto dele
A ÁRVORE EM FOGO
Na tênue névoa vermelha da noite
Víamos as chamas, rubras, oblíquas
Batendo em ondas contra o céu escuro.
No campo em morna quietude
Crepitando
Queimava uma árvore.
Para cima estendiam-se os ramos, de medo estarrecidos
Negros, rodeados de centelhas
De chuva vermelha.
Através da névoa rebentava o fogo.
Apavorantes dançavam as folhas secas
Selvagens, jubilantes, para cair como cinzas
Zombando, em volta do velho tronco
Mas tranqüila, iluminando forte a noite
Como um gigante cansado à beira da morte
Nobre, porém, em sua miséria
Erguia-se a árvore em fogo.
E subitamente estira os ramos negros, rijos
A chama púrpura a percorre inteira –
Por um instante fica erguida contra o céu escuro
E então, rodeada de centelhas
Desaba.
SOUBE QUE VOCÊS NADA QUEREM APRENDER
Soube que vocês nada querem aprender
Então devo concluir que são milionários.
Seu futuro está garantido – à sua frente
Iluminado. Seus pais
Cuidaram para que seus pés
Não topassem com nenhuma pedra. Neste caso
Você nada precisa aprender. Assim como é
Pode ficar.
Havendo ainda dificuldades, pois os tempos
Como ouvir dizer, são incertos
Você tem seus líderes, que lhe dizem exatamente
O que tem a fazer, para que vocês estejam bem.
Eles leram aqueles que sabem
As verdades válidas para todos os tempos
E as receitas que sempre funcionam.
Onde há tantos a seu favor
Você não precisa levantar um dedo.
Sem dúvida, se fosse diferente
Você teria que aprender.
ELOGIO DO APRENDIZADO
Aprenda o mais simples!Para aqueles
Cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas
Aprenda! Não desanime!
Comece! É preciso saber tudo!
Você tem que assumir o comando!
Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
Você tem que assumir o comando!
Freqüente a escola, você que não tem casa!
Adquira conhecimento, você que sente frio!
Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma.
Você tem que assumir o comando.
Não se envergonhe de perguntar, camarada!
Não se deixe convencer
Veja com seus olhos!
O que não sabe por conta própria
Não sabe.
Verifique a conta
É você que vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada item
Pergunte: O que é isso?
Você tem que assumir o comando.
OS ESPERANÇOSOS
Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer
E que os insaciáveis
Devolvam-lhes algo?
Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los!
Por amizade
Os tigres convidarão
A lhes arrancarem os dentes!
É por isso que esperam!
COMETEMOS UM ERRO
Você parece ter dito: se
O meu olho me incomoda
Eu o arranco.
Com isso quis de todo modo sugerir
Que se sente ligado a nós
Como um homem se sente ligado
A seu olho.
Isso é bonito de sua parte, camarada, mas
Permita-nos chamar sua atenção para o seguinte:
O homem, nessa imagem, somos nós
Você é apenas o olho.
A CRUZ DE GIZ
Eu sou uma criada. Eu tive um romance
Com um homem que era da SA.
Um dia, antes de ir
Ele me mostrou, sorrindo, como fazem
Para pegar os insatisfeitos.
Com um giz tirado do bolso do casaco
Ele fez uma pequena cruz na palma da mão.
Ele contou que assim, e vestido à paisana
Anda pelas repartições de trabalho
Onde os desempregados fazem fila e xingam
E xinga junto com eles, e fazendo isso
Em sinal de aprovação e solidariedade
Dá um tapinha nas costas do homem que xinga
E este, marcado com a cruz branca
É apanhado pela SA. Nós rimos com isso.
Andei com ele um ano, então descobri
Que ele havia desfalcado minha caderneta de poupança.
Havia dito que a guardaria para mim
Pois os tempos eram incertos.
Quando lhe tomei satisfações, ele jurou
Que suas intenções eram honestas. Dizendo isso
Pôs a mão em meu ombro para me acalmar.
Eu corri, aterrorizada. Em casa
Olhei minhas costas no espelho, para ver
Se não havia uma cruz branca.
EM TEMPOS NEGROS
Não se dirá: Quando a nogueira balançou no vento
Mas sim: Quando o pintor de paredes esmagou os trabalhadores.
Não se dirá: Quando o menino fez deslizar a pedra lisa pela superfície da correnteza
Mas sim: Quando prepararam as grandes guerras.
Não se dirá: Quando a mulher foi para o quarto
Mas sim: Quando os grandes poderes se uniram contra os trabalhadores.
Mas não se dirá: Os tempos eram negros
E sim: Por que os seus poetas silenciaram?
AOS QUE VÃO NASCER
É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.
Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranqüilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?
Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido)
As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d’água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.
Eu bem gostaria de ser sábio
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.
À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
A comida comi entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor cuidei displicente
E impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.
Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.
Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.
Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pensem em nós
Com simpatia.
POR QUE DEVERIA MEU NOME SER LEMBRADO?
Outrora pensei: em tempos distantes
Quando tiverem ruído as casas onde moro
E apodrecido os navios em que viajei
Meu nome ainda será lembrado
Juntamente com outros
Porque louvei as coisas úteis, o que
No meu tempo era tido como vulgar
Porque combati as religiões
Porque lutei contra a opressão ou
Por um outro motivo.
Porque fui a favor dos homens e tudo
Coloquei em suas mãos, honrando-os assim
Porque escrevi versos e enriqueci a língua
Porque ensinei o comportamento prático ou
Por qualquer outro motivo.
Por isso achei que meu nome ainda seria
Lembrado, em uma pedra
Estaria meu nome, retirado dos livros
Seria impresso nos novos livros.
Mas hoje
Concordo em que seja esquecido.
Por que
Perguntariam pelo padeiro, havendo pão suficiente?
Por que
Seria louvada a neve que já derreteu
Havendo outras neves para cair?
Por que
Deveria haver um passado, havendo
Um futuro?
Por que
Deveria meu nome ser lembrado?
Tradução de Paulo César de Souza
Antes do pô-do-sol se deliciar com os poemas, depois, dormir com eles!!!!AMEI!!!
ResponderExcluirRodrigo Selman
As palavras faltam prá definir o momento mágico deste domingo.O cenário perfeito para uma atriz perfeita num momento mais que perfeito!
ResponderExcluirYumara parecia uma divindade deslizando no cenário seus pés alvos,pequeninos, delicados,que desconfio tiveram que topar com muitas pedras ao longo da sua caminhada,mas ainda assim continuam alvos, pequeninos, delicados.O meu agradecimento pelo convite e parabéns a vocês pela ousadia de olhar de frente O SOL...antes do por do sol.Beijos
Obrigada Maria e Rodrigo!! Momentos mágicos nós os construímos com paixão e trabalho, muito trabalho... E dormir com os ecos da poesia é deitar em berço esplêndido! Beijos
ResponderExcluirCristina Dantas
Agora que ja estive la, antes do por do sol, posso dizer o quanto sou agradecida a Yumara, por tudo que me ensinou, e ainda ensina, da sua grandiosa vida de atriz e a voce, tambem querida atriz, por tudo que nos ensina sobre generosidade, sensibilidade e amor ao teatro e aa poesia. Obrigada, muito obrigada!
ResponderExcluirIami
Iami
ResponderExcluirMuitíssimo obrigada!!! Agora as palavras me escapam... emoção!
Muitos beijos
Cris